prisão da alma

Considerar que exista uma prisão na qual nossa alma esteja encarcerada é admitir que existem coisas que nos limitam. A prisão pode não ser total, no sentido paralisante, que anule por completo quem somos. Embora casos assim existam; a maioria de nós convive com limitações menores. Uma certa liberdade condicional e provisória nos é concedida ocasionalmente. No entanto, ainda assim vivemos limitados. Estar aprisionado é viver uma vida menor do que aquela que temos capacidade de viver. Tudo que reduz ou subtrai nossa capacidade de sonhar é limitante.

Nossa alma sofre ações diversas, algumas conscientes outras não. Inegavelmente a prisão mais difícil de ser detectada é aquela originada em fatores inconscientes. Estas circunstâncias negativas e traumáticas se instalam de maneira sorrateira em nosso olhar e comprometem nossa percepção. A consequência é enxergarmos o mundo e as pessoas através de um olhar distorcido e viciado. Investigar a origem ou lidar com as causas torna-se desafiador. Pois, algumas gavetas de nosso interior estão lacradas há anos, por isso, são difíceis de abrir.

Contudo, qualquer um que deseje experimentar a liberdade de perseguir seus sonhos, cedo ou tarde, precisará escolher lidar com estes traumas. Ao contrário do que alguns pensam, o tempo não é suficiente para curar a maioria de nossas feridas. Porque, inegavelmente, elas podem momentaneamente estar estancadas, não sangram e podem não doer. Mas, ao primeiro movimento que atinge-as, liberam a infecção nelas contida. Pois, toda dor denuncia a existência de um ferimento ainda não totalmente cicatrizado.

“A maior prisão do mundo é aquela que algema a alma e controla a inteligência.” Augusto Cury

Saindo da passividade

Alguns comprometem-se com sua maturidade e crescimento e acessam a dor com naturalidade. Outros, porém, recusam-se a sequer admitir a existência destes fatores limitantes. Tais pessoas sofrem por anos e às vezes durante a vida toda as consequências de erros cometidos por elas e contra elas. Ignorando, portanto, que esta não é uma condição exclusiva delas. Ou seja, todos nós cometemos erros e, por isso, precisamos nos perdoar e prosseguir. De maneira idêntica, outros erram conosco, e estes precisam ser perdoados.

Por isso, sempre que qualquer situação nos paralisa, prendendo-nos a algum trauma, ficamos limitados. Nossa mente registra estes momentos e a dor a eles atrelada nos anestesia, distanciando-nos de nosso alvo. No entanto, o que tais pessoas ignoram é que a mente possui plasticidade, podendo ser “reprogramada”. Resignificar tais momentos é tarefa de cada um, não podendo ser terceirizada. Portanto, o primeiro passo concreto na direção de nossa liberdade é assumir responsabilidade em relação ao nosso papel, já que, não podemos modificar o que nos aconteceu. Mas,  temos pleno controle sobre o significado que atribuímos a cada episódio negativo que vivemos.

Não existem pessoas perfeitas e completas. Contudo, existem pessoas que aprenderam a identificar estes fatores e escolhem lidar com eles. Inegavelmente, temos liberdade para escolher o que, quando e como acessaremos estes traumas, assim como optar por não fazê-lo. Pois, é legítimo o poder da escolha. Mas, em geral, os que fingem estar bem, mascarando sua real condição, experimentam grandes fracassos. São estes também que sentem-se inferiorizados e preteridos. A vida para estes é cinza, não assume coloração e é desprovida de contentamento. Sair da passividade é a chave que abre as gavetas lacradas de nosso interior. Ela pode ser, também, a chave de nossa liberdade.

“O maior grilhão do homem é acreditar que nunca esteve agrilhoado.” Arthur Schopenhauer

A liberdade que ansiamos

Aprendemos o que é liberdade quando descobrimos quais são nossas prisões. No entanto, a covardia pode nos manter cativos. Ser livre é ter coragem de admitir que estamos sufocados, que algo em nós não está totalmente ajustado. Em muitos casos o ajuste é simples, nem sempre indolor, mas certamente mais eficaz que os pesos que carregamos. A ousadia de assumir o protagonismo, responsabilizando-se pelas escolhas feitas, inclui escolher encarar nossa limitação. No entanto, isso não significa reconhecer apenas sua existência. A verdadeira solução envolve reprogramação de nossa mente.

Abrir mão de paradigmas, permitindo que a plasticidade de nosso cérebro opere é decisivo. Nossas zonas de conforto precisam ser invadidas por ar fresco, ventiladas com ideias que eliminem o mofo. A dificuldade de considerar um novo modelo ou ótica é um dos fatores que precisamos eliminar desta equação. Quanto mais arraigados estamos em costumes e tradições herdadas e adquiridas, tanto maior será nossa dificuldade de mudar. Ser livre é sim poder escolher ficar do jeito que estamos. No entanto, a verdadeira liberdade tem sua origem no fato de enxergarmos a vida como uma estrutura maleável.

Tudo que é percebido com rigidez e tem caráter permanente pode ser limitante. Não significa dizer que não devamos buscar estabilidade nas relações e nas conquistas. Significa apenas admitir que nada é eterno e tem caráter imortal em nossa vida, já que, nossa natureza só gera e sustenta coisas passageiras. Contudo, em nossa alma reside uma semente da eternidade e ansiamos por esta realidade de forma instintiva. Embora tenhamos capacidade de alicerçar nossas escolhas com perspectiva eterna, elas sempre terão caráter provisório nesta ordem de coisas.

A alma livre

Assumir que tudo que nos rodeia é limitado e possui um fim é libertador. Somos livres para lidar com as mudanças quando nos percebemos como finitos nesta vida. O contraste e aparente contradição se dá porque nossa alma é eterna. Inegavelmente ansiamos pela eternidade das coisas, mas ela só será experimentada quando terminarmos nossa jornada aqui. Ser um bom mordomo de nossos bens, administrando nossas escolhas e emoções é o que pavimenta nossa eternidade. É precisamente esta perspectiva que deve ser ajustada. Pois é legítimo almejar a eternidade, já que os anos vividos aqui não são suficientes para conquistar tudo que desejamos.

No entanto, a certeza de que nossa passagem aqui é um grande treinamento para o que viveremos no futuro é o que nos capacita a lidar com perdas. Perdemos muitas coisas ao longo da vida. Erramos, resvalamos, nos esfolamos, mas tudo passa e assume proporções que nós determinamos. Os que se levam muito a sério possuem mais dificuldade de recomeçar. Mas os que se percebem corretamente entendem que a plenitude de quem somos não é experimentada nesta vida. Resumidamente, sem ser simplista, temos que passar por esta vida semeando para o porvir. Lidar com o que nos limita, abrindo espaço para as mudanças, imprimirá um caráter eterno ao nosso DNA.

Certamente é o contato com o Criador Eterno, o Deus da criação que nos formou, que nos capacita a escolher este caminho. Pois, sem Sua ajuda e intervenção, nossa alma seguirá aprisionada e cativa. Ele é o precursor de uma realidade que somos convidados a experimentar. Pois, usou Sua vida para servir, foi humilhado e morto em uma cruz. Mas ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos e nos incluiu em Seu sacrifício. Esta é, portanto, garantia suficiente de que vale a pena apostar na vida que nos espera. Viver de forma desapegada e consciente, livres de embaraços, é o que nos posiciona para a eternidade e estabilidade que tanto almejamos.

“A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.” Mario Quintana